Flávio Bolsonaro diz que indígenas querem Wi-Fi: “animais de zoológico”

Uma declaração de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, voltou a ganhar repercussão nas redes sociais e provocou críticas de representantes indígenas.

Durante participação no podcast Market Makers, em 6 de agosto, Flávio relatou uma suposta conversa ocorrida durante uma visita a uma comunidade indígena em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Segundo ele, ao serem questionados sobre o que gostariam que o governo fizesse, indígenas teriam respondido que queriam Wi-Fi.

A partir desse relato, o candidato defendeu que os povos indígenas precisam ter acesso à tecnologia e participar mais da sociedade.

“Índio quer Wi-Fi. Por quê? Porque ele quer se conectar, ele quer fazer parte da sociedade.”

Na sequência, Flávio utilizou a expressão que acabou se tornando o principal motivo da repercussão:

“Não quer mais ser animal de zoológico que o turista paga para ver ele dançando e fazendo fogo com madeira.”

A declaração foi interpretada por críticos como uma representação estereotipada dos povos originários. Ao mesmo tempo, é importante destacar o contexto: Flávio não afirmou que os indígenas são animais de zoológico, mas utilizou essa comparação para dizer que, na visão dele, essas populações não querem ser tratadas dessa forma.

Flávio defende maior autonomia para indígenas

Na mesma entrevista, o candidato relacionou a discussão sobre inclusão à necessidade de ampliar a autonomia econômica das comunidades indígenas.

Flávio afirmou que, em um eventual governo, pretende permitir que os próprios indígenas tenham maior poder de decisão sobre o que fazer em seus territórios.

Entre as possibilidades citadas pelo candidato estão atividades agrícolas e a exploração econômica do subsolo, com recebimento de royalties e respeito às normas ambientais.

“Quem vai resolver o que fazer nas reservas deles são eles”, afirmou.

A proposta, porém, envolve uma questão constitucional complexa. Segundo o Congresso em Foco, a Constituição estabelece regras específicas para a exploração de recursos minerais em terras indígenas, incluindo autorização do Congresso Nacional e consulta às comunidades afetadas.

A fala provocou reação entre lideranças indígenas

Nos últimos dias, a declaração passou a receber novas críticas, especialmente no Amazonas.

A candidata a deputada federal e liderança indígena Vanda Witoto reagiu publicamente às declarações. Para ela, reduzir as reivindicações dos povos originários ao acesso à internet ignora questões consideradas mais importantes pelas comunidades.

Vanda afirmou que a luta indígena envolve, entre outros pontos, dignidade, proteção dos territórios, educação e acesso à água.

“Não estamos atrás de Wi-Fi. A nossa luta é pela manutenção da dignidade de nossas vidas”, declarou.

A liderança também classificou como ultrapassada a comparação feita pelo candidato e afirmou que os povos indígenas possuem seus próprios conhecimentos, tecnologias, línguas e formas de organização.

Para Vanda, a maneira como indígenas são retratados por parte do debate político ainda carrega uma visão colonial sobre os povos originários.

Comparação com fala de Jair Bolsonaro

A expressão utilizada por Flávio também chamou atenção porque lembra uma declaração feita por seu pai, Jair Bolsonaro, em 2018.

Na época, antes de assumir a Presidência, Jair Bolsonaro questionou por que os indígenas deveriam permanecer em reservas “como se fossem animais em zoológicos”. Ele defendia uma maior integração dos povos indígenas à sociedade e criticava a política de demarcação de terras.

A comparação, portanto, não surgiu completamente isolada no discurso político da família Bolsonaro. A ideia de que indígenas deveriam ter maior integração à sociedade já havia sido apresentada anteriormente por Jair Bolsonaro.

Wi-Fi também virou símbolo da discussão

A referência ao Wi-Fi acabou transformando a declaração em um dos assuntos mais comentados relacionados à campanha presidencial nos últimos dias.

Para Flávio, o pedido por internet representa o desejo de muitas comunidades de ter acesso às mesmas tecnologias disponíveis para outros brasileiros.

O candidato citou ainda o programa Wi-Fi Brasil, implementado durante o governo de seu pai, e afirmou que foram instalados milhares de pontos de acesso gratuito à internet, inclusive em escolas e aldeias indígenas. O Metrópoles registrou que Flávio mencionou mais de 21,3 mil pontos ao comentar o programa.

A crítica feita por lideranças indígenas, entretanto, é que o acesso à internet não deveria ser apresentado como se resumisse as principais necessidades dos povos originários.

@roni_rodrigues007

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O debate vai além de uma frase

A polêmica acabou colocando em discussão dois conceitos diferentes sobre o futuro das comunidades indígenas.

De um lado, Flávio Bolsonaro defende uma maior integração à sociedade, acesso à tecnologia e autonomia para que as próprias comunidades possam decidir sobre atividades econômicas em seus territórios.

Do outro, lideranças indígenas argumentam que integração não pode significar abandono da identidade, dos costumes, das línguas e dos direitos territoriais.

A Constituição brasileira reconhece aos povos indígenas sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, além de estabelecer direitos sobre as terras tradicionalmente ocupadas. A exploração de recursos naturais nesses territórios também está sujeita a regras específicas.

Por isso, a discussão provocada pela declaração de Flávio Bolsonaro envolve muito mais do que internet.

Ela toca em questões como identidade cultural, autonomia, desenvolvimento econômico, proteção territorial e participação dos povos indígenas nas decisões que afetam suas próprias comunidades.

Repercussão em meio à disputa presidencial

A polêmica ocorre justamente durante a campanha eleitoral de 2026, quando declarações dos principais candidatos ganham grande alcance nas redes sociais.

Nos últimos dias, novas reações fizeram o episódio voltar ao centro do debate. Vanda Witoto voltou a criticar a fala e afirmou que os povos indígenas não aceitam ser retratados como grupos atrasados ou como atrações para turistas.

Apesar das críticas, o contexto completo da entrevista mostra que Flávio utilizou a expressão “animal de zoológico” justamente para defender a ideia de que os indígenas não deveriam ser tratados dessa maneira.

O episódio, portanto, acabou se transformando em mais um capítulo da disputa política sobre qual deve ser o modelo de relação do Estado brasileiro com os povos originários.

E a pergunta que permanece no centro do debate é justamente esta: garantir internet, tecnologia e oportunidades econômicas significa integrar os povos indígenas ou é possível fazer isso preservando integralmente sua autonomia, identidade e modo de vida?

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