Ele procurou ajuda para uma dor no pescoço, mas acabou com uma síndrome devastadoras.

O que começou como uma tentativa de aliviar um problema aparentemente comum terminou em uma tragédia que mudou completamente a vida de Jonathan Buckelew. Em outubro de 2015, o norte-americano, então com 32 anos, procurou atendimento após apresentar dor no pescoço, dor de cabeça, visão turva e zumbido nos ouvidos.

Pouco tempo depois, Jonathan sofreu um grave acidente vascular cerebral no tronco cerebral e acabou desenvolvendo a chamada síndrome do encarceramento, uma condição neurológica extremamente incapacitante na qual o paciente permanece consciente, mas perde praticamente todos os movimentos voluntários do corpo.

O caso posteriormente chegou aos tribunais e resultou em uma indenização de US$ 75 milhões.

O que aconteceu naquele dia?

Em 26 de outubro de 2015, Jonathan foi ao consultório do quiropraxista Michael Axt. Segundo os registros do processo, ele vinha apresentando sintomas como dor cervical, dores de cabeça, episódios de visão turva e zumbido havia alguns dias.

Durante o atendimento, Jonathan passou por uma manipulação cervical. Depois do procedimento, quando tentou se sentar, começou a apresentar tontura e desorientação. Na sequência, ficou sem responder normalmente e apresentou episódios semelhantes a convulsões.

O quiropraxista acionou o serviço de emergência, e Jonathan foi levado de ambulância ao North Fulton Hospital, na Geórgia. A chegada ao pronto-socorro ocorreu por volta das 16h20.

Naquele momento, a situação já era extremamente grave.

O problema estava em uma artéria

Jonathan havia sofrido uma dissecção da artéria vertebral, uma lesão na parede de uma artéria que pode provocar redução do fluxo sanguíneo e formação de coágulos.

No caso dele, a dissecção estava relacionada a um AVC que atingiu o tronco cerebral.

Exames de imagem chegaram a ser realizados no hospital. Entretanto, de acordo com as conclusões apresentadas no processo judicial, o diagnóstico definitivo do AVC não ocorreu a tempo de que Jonathan pudesse receber um tratamento capaz de alterar significativamente o resultado.

A decisão da Corte de Apelações da Geórgia registra que o AVC do tronco cerebral só foi identificado no dia seguinte, quando já havia passado a janela de oportunidade para a realização de uma trombectomia mecânica.

O diagnóstico demorou e as consequências foram permanentes

Na manhã seguinte, uma ressonância magnética revelou a extensão da dissecção e do AVC. Médicos iniciaram tratamento com anticoagulante e encaminharam as imagens para o Grady Hospital, um centro especializado em AVC.

Mas, segundo o registro judicial, naquele momento já havia passado tempo demais para que uma intervenção tivesse capacidade de modificar significativamente o desfecho.

O dano neurológico foi devastador.

Jonathan desenvolveu a chamada síndrome do encarceramento, também conhecida como locked-in syndrome.

A pessoa com essa condição pode permanecer consciente e preservar a capacidade de compreender o que acontece ao seu redor, mas apresenta paralisia quase completa. Em muitos casos, os movimentos dos olhos permanecem como uma das poucas formas de comunicação.

É justamente essa característica que torna a síndrome tão cruel: o paciente pode estar mentalmente presente, mas preso dentro de um corpo que praticamente não consegue obedecer aos seus comandos.

No caso de Jonathan, ele passou a necessitar de cuidados permanentes. Relatos sobre o processo descrevem a necessidade de assistência contínua, alimentação por sonda e recursos para comunicação.

A família entrou na Justiça

Depois da tragédia, Jonathan e sua família processaram diversos profissionais e instituições envolvidos no atendimento.

O processo envolveu o quiropraxista, o hospital, médicos do pronto-socorro, radiologista, neurologistas e outros profissionais.

Porém, um ponto importante costuma ser perdido nas versões simplificadas da história: o júri não responsabilizou o quiropraxista pelo resultado final.

O veredito considerou responsáveis por negligência grave o médico do pronto-socorro Matthew Womack e o radiologista James Waldschmidt. O júri também decidiu a favor do quiropraxista, do hospital, do neurologista de plantão e de outros profissionais envolvidos.

A indenização chegou a US$ 75 milhões.

Desse valor, US$ 9 milhões foram destinados a despesas médicas já acumuladas, US$ 20 milhões a custos médicos futuros e US$ 46 milhões a danos relacionados à dor e ao sofrimento presentes e futuros. A responsabilidade foi dividida em 60% para Womack e 40% para Waldschmidt.

A decisão foi mantida pela Justiça

O caso não terminou com o veredito do júri.

Um dos médicos contestou a decisão, mas, em março de 2025, a Corte de Apelações da Geórgia manteve o resultado. O tribunal analisou diversos argumentos apresentados no recurso e confirmou a decisão relacionada à responsabilidade dos profissionais.

Assim, o caso de Jonathan Buckelew passou a ser lembrado não apenas pela gravidade da síndrome que ele desenvolveu, mas também pelas discussões sobre a importância de reconhecer rapidamente sinais de um AVC.

Uma condição rara que chama atenção para os sinais de alerta

A síndrome do encarceramento é rara e pode ser consequência de lesões graves no tronco cerebral. O caso de Jonathan é particularmente impressionante porque ele era um homem jovem e, antes daquele episódio, levava uma vida normal.

A história também mostra como determinados sintomas neurológicos podem ser confundidos com problemas menos graves.

Dor no pescoço acompanhada de dor de cabeça, tontura, alterações visuais, dificuldade para falar, fraqueza, perda de coordenação ou outros sintomas neurológicos merece avaliação médica imediata.

Isso não significa que uma dor cervical comum seja sinal de uma dissecção arterial ou de um AVC. Na maioria das vezes, dores no pescoço têm causas muito menos graves. Entretanto, quando surgem sintomas neurológicos associados, a situação muda completamente e a avaliação rápida pode ser decisiva.

No caso de Jonathan, uma queixa inicialmente aparentemente simples acabou desencadeando uma sequência de acontecimentos que transformou sua vida para sempre.

Mais de uma década depois do episódio, o caso continua sendo citado como um exemplo dramático de como tempo, diagnóstico e tratamento adequado podem ser determinantes diante de uma emergência neurológica.

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